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DESTACADO: Hoje um terço de moradores de cidades vive em favelas, em 2050 metade da população mundial viverá em favelas


Estatísticas do livro “Living in the Endless City” lançado em Londres

“Como que uma consultora ambiental brasileira não é especializada em florestas?” Para a maioria dos ingleses e europeus, falar em meio ambiente e Brasil é sinônimo de falar em Amazônia. Desde os meus dias de mestrado na London School of Economics  (LSE) até hoje, sempre tenho que explicar e repetir que mais de 75% da população brasileira vive em cidades e que os problemas ambientais nas cidades são tão importantes quanto os da Amazônia. A partir da semana passada a minha resposta fica mais fácil. Dia 6 de Junho foi lançado, aqui em Londres, o livro “Living in the Endless City” [http://urban-age.net/publications/living-in-the-endless-city/]. Já na introdução ressalta-se o fato de que 75% das emissões de dióxido de carbono mundiais são produzidas em cidades. Problemas como lixo, transporte público, água, saneamento básico e padrões de construção de conjuntos habitacionais são alguns dos temas abordados nas 432 páginas do livro. Apesar de ser um tijolo, a leitura vale a pena. Além de textos de diversos autores internacionais renomados no assunto, a apresentação conta com uma gama de gráficos estilizados, fotografias e tabelas comparativas para ninguém colocar defeito.

Esse é o segundo volume da série “Urban Age” http://www.urban-age.net/. O primeiro livro demorou seis anos para ser lançado e focava em seis cidades: Nova Iorque, Xangai, Londres, Cidade do México, Johanesburgo e Berlin. Agora foram apenas três anos e o foco é dado a três “megalópoles”: Istambul, Mumbai e São Paulo. Ótimo para quem trabalha na área, ou que simplesmente se interessa pelo assunto, o livro apresenta inúmeras estatísticas das nove cidades, incluindo:
•Uso de eletricidade anual (kWh/pessoa): 1,954 em São Paulo, 6,603 em Nova Iorque, 579 em Mumbai e 4,539 em Londres.
•Consumo diário de litros água por pessoa:  185 em São Paulo, 607 em Nova Iorque, 90 em Mumbai e 324 em Londres.
•Homicídios por cem mil habitantes: 21 em São Paulo, 6.3 em Nova Iorque, 3 em Mumbai e 2.2 em Londres.
•Preço de um bilhete de metrô (em dólares americanos): 1.6 em São Paulo, 2.3 em Nova Iorque, 0.2 em Mumbai e 7.1 em Londres.

Além de demonstrar a correlação entre o crescimento das cidades e o meio ambiente, os autores também alertam para a mudança do perfil da pobreza mundial. O número de pobres urbanos cresceu em 50 milhões de 1993 à 2002. Hoje um terço de moradores de cidades vive em favelas, em 2050 metade da população mundial viverá em favelas. Ou seja, há uma necessidade de se entender melhor os impactos da pobreza urbana para a adaptação de políticas públicas e financiamentos internacionais para a redução da pobreza que tradicionalmente focavam nas áreas rurais.

Ao abrir o evento de lançamento na LSE, Wolfgang Nowak, Diretor da Alfred Herrhausen Society, ressaltou que na próxima década devemos olhar principalmente para a urbanização na África, uma disciplina ainda não muito estudada. Diferentemente dos fenômenos de urbanização vistos no Japão na década de 50, na Coréia na década de 60 e na China na última década, os moradores rurais da África vão para as cidades, muitas vezes diretamente para as favelas, sem o sonho dourado de um emprego no setor industrial e sem qualquer expectativa de emprego a curto prazo. Na África, os índices que medem os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) [http://www.pnud.org.br/odm/] ao invés de melhorar estão piorando. Hoje 80% da economia da África é informal, e 65% da população mora em favelas. Nos próximos 15 anos a população das cidades Africanas vai dobrar. Como lidar com um continente que dobrará sua população sem industrialização é uma pergunta ainda sem resposta.

Os autores exploram também novas formas de interação social diante de catástrofes ambientais causadas pela mudança climática. Nas enchentes em Mumbai em 2005, por exemplo, os moradores das favelas desceram para o asfalto para socorrer os moradores ricos em seus carros e os levaram para as suas casas enquanto a água baixava. Será preciso mais do que solidariedade para que cidades consigam se adaptar as mudanças climáticas, entretanto, não deve-se menosprezar o poder da ajuda do próximo.

Se você por acaso estiver passando por Berlin, o livro será lançado lá na próxima sexta-feira, dia 17 de Junho. Para  os que perderam o lançamento em aqui e não estarão em Berlin, pode-se ver o vídeo com os debates do lançamento em Londres na íntegra (2horas de filme) em https://www.youtube.com/watch?v=vHcJbFjqXbU Para os que nao dispoem de tanto tempo, um vídeo com o Ricky Burdett, professor de arquitetura e desenvolvimento urbano e Diretor do programma “Urban Age” da London School of Economics, pode ser assistido em http://www.amazon.co.uk/gp/mpd/permalink/m37FBOAFVA4XO4/

Acredito que uma foto fala por mil palavras, então termino este post com uma imagem do fotografo dinamarquês Joan Bendiksen, que faz parte do seu trabalho “Os lugares onde vivemos”, onde ele registra “casas” de 4 paredes em Caracas, Nairóbi, Mumbai e Jacarta. O projeto que ganhou prêmios e foi transformado em um livro também está disponível no site http://www.theplaceswelive.com/

Autor: Isabela Souza
Climate and Development Knowledge Network (CDKN) | Global Manager
PwC | Sustainability and Climate Change Manager

Fotografía: Dharavi, Mumbai

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